
Imagens que Permanecem
* Cloves Marques
Conta Matsuo Bashô(1), no seu diário de viagem ao Santuário de Kashima, que leu um haicai de um poeta de Kyoto e “a imagem desse poema não me saiu da cabeça”, motivando-o a uma nova caminhada para ver o nascimento da lua cheia sobre as montanhas.
O poema que transmite e permanece é aquele que, recheado de símbolos, permite e convida o leitor a vôos de desdobramento. Notadamente no haicai, poema de imagens por excelência, encontra-se a palavra consubstanciando o que se vê e a aparência percebida, suscitando certas relações entre o observador e o objeto apreciado.
A imagem vem antes do verbo, da palavra, do logos. Diria, ainda metaforicamente, que a palavra “ouve” e se oferece, sem desprezar que, ao pensamento do grande poeta russo Maiakovski(2), “cada palavra tem seu perfume, sua cor, sua alma”. Com a sensibilidade e engenhosidade do poeta, o poema se faz e ao leitor cabe captar o potencial associativo de cada expressão.
A poesia do haicai contempla mais algumas singularidades, consagradas por Bashô (1644-1694), um poeta andarilho, de comportamento zen, mas que não chegou a ser monge; apenas trocou o mundo das compensações materiais pela construção de vida com reflexões e sínteses, a maioria das vezes ofertadas em “haibum” (do japonês: diário entrecortado de haicais), tendo feito discípulos e deixado seguidores.
Uma dessas singularidades é o embate produzido entre o que é passageiro e o permanente, buscando a unidade. Como assegura Alberto Marsicano(3), os haicais, livres dos encadeamentos lógicos, “manifestam o fluir contínuo e errante através da eternidade, a compulsante unidade estabelecida entre elementos efêmeros, transitórios e mutáveis (ryuko) e a imutável e eterna essência (kyo)”.
Telma de Figueiredo Brilhante inicia-se nesse gênero de poesia e se externa com o livro “Sendas do Oriente”, tomando como base inspiratória a Natureza (e assim haveria de ser). Brinda os leitores com expressivos tercetos, que mostram o despertar (satori) que a assalta através das imagens do seu cotidiano. Os olhos captam o objeto de apreciação e a imagem desperta o sentimento. “Para Santo Agostinho – lembra Alfredo Bosi(4) – o olho é o mais espiritual dos sentidos”.
O haicai LXXV, por exemplo,
Solidão do tempo.
Mãos tateiam trevas
construindo luas.
mesmo sem alcançar as dezessete sílabas poéticas (5/7/5), inspira a continuidade de um momento zen, em que a “Solidão do tempo”, esse instante essência (kyo), se contrapõe a “Mãos tateiam trevas”, elemento transitório (ryuko), para “construindo luas.” produzir o elemento surpresa gerador da unidade. Um belo haicai que nos permite viajar.
O haicai é uma expressão vivencial e imagética que traz, na sua essência, os reflexos de um momento experimentado. Ou mesmo, na fala da haicaista Teruko Oda(5), é “um recorte, uma espécie de registro fotográfico do cotidiano” e complementa “sendo a natureza sua fonte de inspiração, quase tudo do nosso redor pode ser transformado em haicai”.
O contexto se oferece, com observação/participação, sentimento e a palavra certa a composição nasce. No caso do haicai, o clima é caracterizado por expressões representativas da estação do ano (no japonês: kigô). Mesmo considerando a “escassa nitidez das estações” (Eunice Arruda(6)) em nossa região, apreciemos alguns tercetos de Telma Brilhante:
a) no de número LXVII, com termos de estação “flores”, “abelhas”, “pólen” denotativos da PRIMAVERA
Nas flores, abelhas
sugam o pólen, serenas.
Anunciam orvalho.
b) o haicai XXX destaca o kigô “vaga-lumes”, indicativo do VERÃO
Densa escuridão.
Bússolas de vaga-lumes
mostram o caminho.
c) no terceto LXII, encontro os kigôs
“vento” e “lágrimas de folhas” que sugerem o OUTONO
Alvoroça o vento.
Copas de árvores choram
lágrimas de folhas.
d) o haicai de número LXXIV destaca o final da estação INVERNO
Despertam os rios.
Na despedida do inverno,
bebem os caminhos.
Escrever e lê haicais, independentemente de aspectos técnicos, é um ato de prazer e realização pela busca de certa leveza espiritual e na tranqüilidade própria de indagações filosóficas, principalmente quando isto se dá sem se perder a vivacidade do momento. É o que experimentei na leitura desses haicais.
O haijim (do japonês: poeta do haicai) Fernando Sérgio Lyra(7), no livro “Planos de Gaivota”, reproduz o seguinte pensamento de Alan Watts: “Um haicai não é um poema, não é literatura: é um aceno de mão, uma porta entreaberta, um espelho polido”. Assim, parece-me está fazendo Telma Brilhante, numa caminhada que se prenuncia alvissareira, pois como que espalhando pequenos acenos, os seus haicais induzem a imagens de muitos nascimentos de luas cheias que permanecem.
*Cloves Marques – Poeta de tankas e haicais. Membro das Academias: Recifense de Letras, de Artes e Letras de Pernambuco, de Letras e Artes do Nordeste.
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A dimensão poética nos haicais de
Telma Brilhante
*Carlos Cavalcanti
Gosto, sobremaneira, da lavra poética de Telma Brilhante, do seu poder de síntese, da sua forma objetiva e erudita de escrever.
Os seus haicais são belíssimos. Um verda-deiro conjunto de poemetos bem elaborados e insertos na forma correta desse tipo oriental de poema.
A sua genésica capacidade de escrever revela uma espontaneidade criadora, fluente e multi-
facetada. Nos seus poemas a filosofia jorra tão naturalmente que chega a nos permitir cavalgar nas campinas verdejantes do Nordeste e, chegando à costa, singrar as águas irrequietas do Atlântico. Tudo é contemplação!
A síntese, nos seus haicais economiza em palavras e extrapola em linguagem professoral e congruente.
Parece que a viração morna do Cariri cearense revelou na paisagem adusta da região, o mapa multicor refletido nos seus belos haicais.
Traduzir a feição verde/cinza da Natureza, expressar o sentimento ambiental através da verve poética e sintetizar em dezessete versos o conteúdo imagístico do minipoema, torna essa forma fixa de poesia uma das mais difíceis do gênero poético.
O haicai, apesar de pequeno, tem em si uma mensagem completa, ou seja: princípio, meio e fim. Nasce e morre nele mesmo, não serve de trampolim para o outro a seguir. É um poema hermético em sua estrutura e ao mesmo tempo, aberto como mensagem ambiental e natural através da síntese que lhe é característica, desde que adornada de inteligência.
Analisando os seus versos pude verificar o quanto de sensibilidade dispensou na elaboração de cada um deles. A linguagem conotativa ou metafórica, existente no universo sensitivo destes poemetos, perpetuará a sua produção poética através dos tempos. Vá adiante, fotografe com a retina a menina dos olhos da paisagem e traga a paz dos campos para as páginas deste livro. Ninguém faz nada melhor no gênero.
O ato de escrever tem as suas armadilhas: quando prolixo corre o risco de pecar por excesso. Quando sintético pode deixar de expressar um sentimento completo e necessário ao fechamento da idéia textual.
No caso dos haicais, por ser um poemínimo, além de tudo subordinado às regras orientais do seu gênero, onde a Natureza fala mais alto e não cede lugar a nenhum outro foco de inspiração, o ato de escrever, nesse caso torna-se especialíssimo e grandemente exclusivo para quem entende do assunto.
A escritora, oriunda do cariri cearense, terra bafejada pelo sopro tépido da caatinga nordestina, menina lutadora desde a infância na busca do aprender radicou-se no Recife e aqui atingiu o clímax da sua cultura pedagógica e eminente-
mente poética. Restou-lhe ainda um vasto espaço no disco rígido do seu imaginário para torná-la uma especialista no ato de escrever histórias infantis e contos maravilhosos.
Telma traz agora às nossas mãos Sendas do Oriente. Trata-se de um trabalho burilado e específico na formatação e no conteúdo. A Natureza abre os braços em cada página deste livro e convida a todos os leitores para um abraço fraternal. Parabéns!
* Carlos Cavalcanti é poeta, professor, presidente da Academia Olindense de Letras e membro de outras instituições culturais.
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Telma de Figueiredo Brilhante
Cearense do Crato, mora em Recife desde 1966. É formada em Letras, com Especialização em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Professora aposentada pela Secretaria de Educação de Pernambuco. Na área de Educação, no Ceará, atuou como professora e diretora de escola publica. Em Pernambuco, professora, vice-diretora e participante do Projeto de Capacitação de Professores (1ª fase).
Coordenou um dos encontros do Grupo de Língua Portuguesa do DERE SUL/PE. Orientou Monografias no curso de Pós-Graduação “Especialização em Literaturas de Expressão” na Faculdade de Formação de Professores de Nazaré da Mata. Representou o DERE SUL no Seminário de Currículo em Aldeia, em 1985. Estreou na Literatura com o livro de ficção Contos Chão. (Premiado pela UBE). Aflição de Pássaros, de contos, premiado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras – 2005. Magia do Instante, de crônicas.
O último, Crepúsculo das Coisas, de contos. Na área infantil escreveu Destino do Planeta Terra, O Pequeno Pescador e Arabela e o Camaleão. Foi co-autora do Reescrevendo Contos de Fada. Participou de muitas antologias de poesias e contos. Dentre elas: Novelas de Aprendizado, (Org. Raimundo Carrero); Antologia dos Poetas Vivos de Olinda; Agenda do Poeta, Org. Salete Rego Barros.
Da trilogia: Retratos – Poesias; Olhares – Contos; e Vozes – Crônicas, sob a ótica feminina contemporânea em Pernambuco. Org. Elizabeth Siqueira e Laura Areias. O Fim da Velhice, Org. Jacques Ribemboim. Os Rios e Seus Poetas, Org. Lourdes Nicácio; Panorâmica do Conto em Pernambuco, Org. Antônio Campos e Cyl Gallindo. Integra a Diretoria da União Brasileira de Escritores –PE, da Academia de Letras e Artes do Nordeste, e dos grupos literários Celina de Holanda e Sociedade dos Poetas Vivos de Olinda.
Querida escritora, Telma Brilhante, uma maravilha o seu livro Sendas do Oriente. Algo assim, primoroso, especial. Haikais de delicadeza, harmonia e profundidade. Parabens pelo trabalho. O blog ficou excelente.
Por: Luciene Freitas em abril 24, 2009
às 8:38 pm
Luciene:
Fiquei comovida com o seu comentário. Muito obrigada mesmo.
Abraço forte.
Por: Telma Brilhante em maio 23, 2009
às 8:47 pm
Haicais & Haicais…
Uma sensação oriental invade-me…
Brasil?America Latina…Oriente…Onde estou…(???)
Estou na terra nao denominada por regiões, mas por poesia, beleza…Assim é o país de Telma Brilhante: uma “Senda”
…Tu…Eu…Nós…Adentramos e nos deparamos com com algo que não se denomina, apenas DOMINA: POESIA!
É este o meu encontro com Telma…
Telma que é Brilhante na arte da escrita…
Prof Graças, é especialista pela UFPE, em Lit. Brasileira.
Una incondicional admiradora da ARTE!
Por: Prof Graças em maio 24, 2009
às 11:34 pm
Prof. Graça:
Que belo estímulo seu depoimento. Fico agradecida por sua sensibilidade, somente pessoas ligadas às Artes conseguem captar o âmago da criação poética.
Fraterno abraço.
Por: Telma Brilhante em maio 28, 2009
às 2:58 am
O minuto expressa tempo. Completa sua eternidade. O haicai é tal essa fração de tempo dentro da literatura. Quem trabalha com ele está apto a urdir com ele qualquer forma de verso. Tem seus arranjos que são o fogo das imagens e do perceber. O livro Sendas do Oriente de Telma Brilhante é bonito. Tem essa sabedoria. A poeta Telma leva acesos os sensores da alma dentro da penumbra da vida. Capta as sendas da vida. Capta as sensações naturais como partícipe do mundo que é. Além disso sabe caber no cenário, com lirismo, sensibilidade e bom engenho. Dá um replay bem vestido, limpo e lúdico, quando escreve. Enfim, faz haicais com a leveza do Oriente.
Parabéns, amiga Telma.
Lúcio Ferreira
Poeta
Por: Lúcio Ferreira em maio 25, 2009
às 12:45 am
Lúcio, amigo:
Que grata surpresa este comentário em forma de poema. Sinto-me lisongeada. Não encontramos todos os dias poetas dessa estirpe, que tão bem sabem destrinçar “as coisas cá de dentro.” Você é mestre neste traçado.
Muitíssimo obrigada.
Por: Telma Brilhante em maio 28, 2009
às 3:09 am
Querida amiga Telma,
A alegria gratuita da canção,o vago róseo da infância, o crepúsculo errante da tristeza , a névoa da distância, a nudez da noite calma e fria, e toda a Natureza em alvoroço e beleza, constituem estes teus haicais. Parabéns, amiga!
Li com muita atenção e carinho. Gostei também muito do livro de seu pai que foi realmente um pai de quem vocês devem se orgulhar para sempre. E muito boa a idéia de resgatá-lo.
Um abração,
Valdene
Por: Valdene Duarte em maio 25, 2009
às 8:44 am
Valdene querida:
Agradeço suas andanças pelos haicais e a maneira como os descreveu. Buscamos leitores que nos justifiquem a paixão pelo ato de escrever, que realmente valha a pena continuarmos. Você bem sabe disso, amiga romancista e poeta.
Reitero meus agradecimentos com um abraço.
Por: Telma Brilhante em maio 28, 2009
às 3:29 am
As “Sendas” de Telma
Incansavelmente envolvida pelos caminhos da prosa e da poesia, do verso e da ficção, surpreendentemente Telma Brilhante criou atalhos em sua peregrinação literária e nos conduziu para o belo universo dos HAICAIS. Sua importante obra não é uma colcha de retalhos, tecidas de sonhos impossíveis e pedaços do SIM ou do NÃO. É, acima de tudo, um manto de verdes esperanças e de cânticos à Mãe Natureza:
“No dorso do sonho
galopei felicidade
em campos floridos”
ou então, neste outro terceto:
“No alto da montanha
anoiteceram as nuvens.
Desabaram lágrimas.”
noutras sequencias da leitura de “Sendas do Oriente”, Telma realmente nos transporta para o místico e profundamente humano das terras orientais, fazendo-nos meditar sobre o amor, Saudade, Fé e Paz, muita paz…
“O sol se escondia.
As almas sorriem nuvens
estrelas buscando”.
e nessa outra
“Fulgem as estrelas.
A lua banha a floresta
com gotas de orvalho”
Sendas do Oriente, conclusivamente antes de tudo, são atalhos onde encontramos a ternura d’alma, a bondade de um coração aberto e, principalmente, o brilho da arte de escrever de nossa querida escritora e poetisa TELMA BRILHANTE!
Tavares de Lima
Jornalista/Escritor
Por: Tavares de Lima em junho 17, 2009
às 6:41 pm
Amigo Tavares de Lima, só tenho a agradecer suas palavras incentivadoras, comentário que me deixou comovida, creia.
Grande e fraterno abraço.
Por: Tavares de Lima em junho 17, 2009
às 6:48 pm